quarta-feira, 1 de junho de 2011

O MERCADOR DE PRAZERES

I
 
   No dia em que Lúcifer liderou a rebelião nos Céus, (estruturadamente criada pela nossa razão imaginativa e caótica) umas pequenas parcelas de anjos, entre eles Danubios, ficaram confusos. Não sabiam ao certo de que lado ficar, ou seja, automaticamente perderam seu elo com Deus. Pois no Reino dos Céus a hesitação é algo inadmissível, é preciso ter cem por cento de fé no Senhor e em suas regras. Sendo assim, Danubios fora banido do paraíso junto com outros fanfarrões.
   Mas tiveram que criar uma hierarquia entre eles para que não houvesse desordem, pois Lúcifer apesar de rebelde não acreditava que a anarquia ou o niilismo fossem o melhor método para se construir um mundo melhor aos seus olhos. Sendo assim as classes ficaram divididas em Mephistus (1ºcasta, 2°casta, 3°casta, decaídos) e Nephas-tus (Legião, Demônios, Carnais). E todos ali teriam suas respectivas funções administrativas naquele novo Hades.
  
   Danubios então se tornava agora um Demônio morador dos Infernos, (estruturadamente criada pela nossa razão imaginativa e caótica). Era o responsável por coletar e negociar as almas dos homens. Mas instalado em seu âmago, ainda que profundamente, restava à mosca da dúvida sobre seu destino, que de tempos em tempos vinha azucrinar a sua mente. Com o passar do tempo foi se tornando um demônio cansado de alimentar-se do ódio das pessoas, de servir apenas como escravo do sistema de Lúcifer e mensageiro para os homens que possuíam o poder de conjurar o seu nome. Ele refletiu muito sobre a condição humana, quis saber por si só o porquê de Deus preferir os frágeis humanos ao invés daquele que foi o seu mais poderoso e belo anjo. Estava cansado de sentir o mesmo sentimento por tantos séculos, queria agora comungar das paixões e dos bons sentimentos junto com os seres prediletos de Deus. Queria agora reascender a chama dos reais valores deixados por Deus aos homens, valores esses que um dia já sentiu, mas que fora esquecido graças á crueldade do tempo e da sua vontade. Em um primeiro momento essa ideia lhe apareceu absurda e impossível de ser realizada, no entanto não quis arredar o pé e persistiu nela, mas vejam bem, sua real intenção não era buscar a misericórdia de seu antigo Pai. Até porque isso já não era possível. Ele sabia que a redenção só poderia ser alcançada pelos humanos que ainda se encontravam presentes na terra e não pelas criaturas do submundo. Ele não se sentia pior e nem melhor que os seres andantes da Terra. Considerava a sua estadia no submundo apenas como uma espécie de castigo inquerido pelo Pai para que refletisse sobre a natureza rebelde de seus atos.
   
   O seu plano era lógico e de cunho experimental. A verdade é que estava entediado e queria sentir novas sensações, ou melhor, velhas sensações.
   Assim como Lúcifer um dia contrariou o amor de Deus por todos, ele agora contrariava o ódio que Lúcifer tinha por qualquer criatura da quinta e das outras dimensões.
   

  Ao chegar em nossa dimensão (estruturadamente criada pela nossa razão imaginativa e caótica) através de um mago inexperiente que o invocara e não sob controla-lo...
   Antes de prosseguirmos é importante destacar que devido à burocracia no inferno criada por Lúcifer, os demônios coletores de almas que ganhavam passe livre no mundo dos homens não podiam ficar por aqui por muito tempo. O serviço deveria ser o mais breve possível e sempre acompanhado de um fiscal que sempre encaminhava relatórios ao chefe sobre os seus funcionários e seus respectivos desempenhos, e cá entre nós, Danubios nunca foi merecedor de um retrato na parede com os dizeres “funcionário do mês”. Mas quando ele chega ao nosso mundo através de um ritual de invocação o seu ectoplasma se torna independente do inferno e se o invocador não tiver conhecimento e habilidade para controlá-lo, o invocado pode escapulir, como no caso do nosso demoniozinho que curte antropologia, ou seria antropofagia? O que importa é que agora Danubios estava livre e pronto para começar a sua busca por um sentimento, ou melhor, pelo o sentimento conhecido por nós como amor.
  
  Danubios chegou ao nosso mundo, e sob forma de um homem comum começou a perambular pelos locais habitados por nós, é verdade que sentia-se meio atrapalhado, pois conhecia todas as fraquezas e nobrezas humanas, mas não sentia nada de diferente em si. Onde está a sensação boa de amar e ser amado que sentiu outrora? Como irei encontrar algo cuja pesquisa até então não saiu do mundo teórico. Danubios então subiu no alto de uma grande estátua no meio da cidade e começou a observar a movimentação dos transeuntes, coçava o queixo e imaginava por onde começaria a sua pesquisa de forma empírica.
Aliás, permita-me agora interromper a narrativa novamente e voltar um pouco nas lembranças longínquas de Danubios. Em épocas passadas ele usava o seu ofício de coletar almas como desculpa para saber um pouco mais sobre os humanos, e nestes percursos constituiu assim um diálogo memorável que o fez ter uma maior compreensão dos sentimentos mais terríveis e complexos do ser humano. Em uma de suas estadias pela Terra acabou por conhecendo um senhor inglês chamado Willian Shakespeare.
   
  O senhor Will havia concluído há pouco tempo a sua obra máxima. Já era muito conhecido e reverenciado pelas mentes mais intelectuais da época. Enquanto dava seus últimos reajustes nas interpretações de seus personagens no palco, fora surpreendido por um garoto. Esse que na verdade era Danubios personificado na Terra sobre o corpo de uma criança de doze anos, que lhe perguntou o porquê de seu personagem principal questionar tanto a Deus.
   Will se demonstrou estarrecido por tal pergunta vinda de uma criança. No entanto ele não fez questão de saber como essa criança teve acesso às ideias do personagem, mesmo porque ela havia feito uma descrição errada do personagem. O que era perfeitamente normal já que a peça possuía um conteúdo intelectual impróprio para as crianças. Ele então arrogantemente respondeu para Danubios:

− Você esta errada minha criança, o protagonista em nenhum momento questiona os atos de nosso Deus, mas sim os atos humanos. Ele precisa a todo o momento decifrar e descobrir o porquê de sua existência em volta de todas as paisagens contraditoriamente humanas. Ele precisa ser ou não ser alguma coisa, e de preferência ser alguma coisa boa. Mas o mal, a inveja, a traição, a revolta, o egoísmo, a vingança, o ódio acabam por lhe trazer devaneios sobre o como agir sem que se perca a sanidade. Sem que se perca a sua humanidade e sua ligação com um Deus feito de amor, mas que, porém com certeza nos mostra esse amor dos modos mais esquisitos possíveis – explicou o velho dramaturgo.

Danubios um tanto quanto pensativo apenas balançou a cabeça demonstrando um sinal de positivo e voltou seus olhos para a terra no chão. Levantou rapidamente a cabeça reflexiva e com um semblante sério e julgador destilou o seguinte comentário:

− Mas caminhar por sobre uma corda bamba é inadmissível, todos os seres precisam ter certeza de seus destinos e controle de seus instintos. A dúvida acaba com os nossos bons sonhos, acaba com nossos espíritos, e nos distancia de Deus. Seu grande personagem não é um protagonista. É um coadjuvante, que por duvidar e se questionar de tudo acabará por se tornar o antagonista e aí sim conseguirá encontrar o seu papel, que no grande espetáculo chamado vida é conhecida como o homem mal, que representará todos aqueles sentimentos que você mais gosta de brincar. Se ele desconhece o seu próprio eu, ele então desconhece o amor.

Willian fez uma cara de espanto ao ouvir tal crítica vinda de uma criança. Mesmo para ele que sempre dizia que as crianças eram criaturas mais espertas que os adultos. Mas ele não deixou a peteca cair e retrucou.

− Para uma criança você é bem pessimista! – exclamou sorrindo. – A contradição humana não é nenhum mal. O mal é a razão da lógica e a cegueira da fé. Ter cem por cento de alguma coisa não pode e não deve ser satisfatório para ninguém. Manter uma ordem tirânica em sua vida é também caminho certo para o desentendimento social. O questionamento sempre nos manterá um equilíbrio, e a resposta para tudo é tão simples e banal que acaba por se tornar algo complexo em nossas mentes complexas. Mas é essa pulga zombeteira que não conseguimos encontrar em nossa mente e em nossa alma que nos torna o homem que sempre fomos e que sempre seremos até o fim.

No entanto essa é uma concepção que ainda está longe de ser entendida por uma criança como você. Esse é um assunto que só os adultos deveriam martelar em suas mentes. Portanto volte para seus afazeres de criança, e aprecie ao máximo enquanto é tempo a sua ingenuidade infantil. - Se é que você possui uma - pensou consigo mesmo.
   Dito isso, Willian deu-lhe as costas e seguiu rumo a um ator que ali ao seu lado se encontrava.
   
Danubios evaporou-se e voltou para sua residência obscura. Ainda mais confuso e revoltado por ter conhecido um humano que sabia mais da natureza humana que um ser metafísico que um dia conversara com Deus, lutara com os mais nobres seres alados, e que agora era compatriota do mundo inferior.
   Mas isso foi ha muito tempo. Danubios agora dispunha de liberdade total para ficar o tempo que fosse necessário para buscar um novo-velho sentimento e se possível voltar antes de notarem a sua ausência nas repartições infernais. 

                                                                                                                       continua...

3 comentários:

  1. Logo o primeiro parágrafo fez eu lembrar de uma frase que li nem sei onde: quando vc optar por ficar em cima do murro para não decidir de q lado vc está, vc já decidiu, pq até o muro tem dono.

    ResponderExcluir
  2. Algumas vezes me pergunto se a Amanda, como o menino que conversou com William, não é a personificação de um ser superior tentando empiricamente entender a humanidade... e .... e mais ...

    ResponderExcluir
  3. Não duvido que crianças como a Amanda não sejam reencanações que vieram para questionar e mudar o nosso status quo social.

    ResponderExcluir